Trazendo o livro de agosto em setembro porque sim, me deem um desconto, o mês acabou tem nem uma semana. E o livro que escolhi para trazer é novo: Bons Tempos ou Yesteryear, da autora estreante Caro Claire Burke. Esse livro se vende como uma mulher casada recatada e do lar, de extrema direita que acaba viajando no tempo e indo parar em 1800, sendo obrigada a viver a vida que ela tanto pregava para os seus seguidoras como sendo boa. Parece uma premissa muito interessante, mas o livro não é realmente sobre isso. Então tome cuidado quando for ler ele, pois, embora seja sim uma historia muito boa, o foco dela não é viagem no tempo e os capítulos focados nessa viagem temporal são curtos e com progresso lento ou quase nulo, enquanto o foco fica na vida dela no presente, mostrando como foi os anos iniciais na faculdade, do casamento até os dias atuais.
O livro traz como protagonista a Natalie, uma mulher classe media baixa que foi criada por uma mãe conservadora e cristã que sempre pregou que as filhas deveriam se casar e ter muitos filhos, que não existe divorcio e que a mulher deve respeitar e apoiar o seu marido sem questionamentos. A própria mãe de Natalie é solteira, porque o marido dela a largou — mas ela diz a todo mundo que ele morreu kkkkk. Sendo criada por uma pessoa tão interessante assim é claro que Natalie cresceria completamente perturbada, né? Mas a diva logo conhece um herdeiro de um senador e se casa com ele, mas logo descobre que o querido marido é um inútil que não serve para nada, que não quer trabalhar e além de tudo é desses cospiracionistas que acreditam que vacina traz doenças e se brincar deve acreditar que a terra é plana, eu não duvidaria, porque aquele cara é um completo idiota. A Natalie fica morta de vergonha, porque foi ensinada que o marido deve prover, né? Embora eu ache ridículo isso, eles eram milionários, quem diabos vai querer trabalhar já sendo abastado? Só essa fodida mesmo. Dai ela tem a brilhante ideia de comprar uma fazenda para o marido cuidar, mas tem que ser uma fazenda que nem nos tempos de 1800, sem conforto. A pegadinha é que essa parte é mentira, a fazenda é toda equipada com eletricidade, conforto e tudo mais, porém os eletrodomésticos e coisas do tipo meio que ficam escondidos, porque ela quer vender para todo mundo que é uma dona de casa que consegue fazer tudo como nos velhos tempos sem a necessidade de empregados ou eletrodomésticos (ela tem três babás). E a diva meio que fica famosa no Instagram assim, vendendo essa vida de "nos velhos tempos" cuidado de uma fazenda organiza (não é) e de todos os seus seis filhos, sem ajuda de ninguém.
Mas na realidade a Natalie já estava completamente fodida da cabeça muito antes de irem para essa fazenda, porque a vida que ela queria sustentar era basicamente impossível. E mesmo ela vendo um monte de red flag — como por exemplo a sogra que vivia a base de antidepressivos para manter as aparências, ela ainda insistia que era a vida que ela queria e que Deus estava a testando. A Natalie é uma personagem que é um misto de hipocrisia e burrice, talvez um tanto de mal caratismo também, e eu diria que é uma personagem completamente fora da realidade, mas na verdade, todos nós conhecemos no mínimo uma centena de Natalies. A gente vai vendo conforme o livro anda, que sua família materna, sua mãe e sua irmã, vão evoluindo como pessoas e até deixando muitos de seus preconceitos de lado, para abraçar uma vida mais saudável e feliz, enquanto Natalie apenas se afunda na própria hipocrisia. Eu acho que hipocrisia é a palavra que mais define essa pessoa. Ela é hipócrita e burra, e talvez fanática religiosa, porque apenas assim para estar tão mal mentalmente e mesmo assim seguir naquela narrativa simplesmente porque acha que é Deus a testando.
A Natalie foi ensinada que nunca deve questionar o marido. E desde o inicio ela percebe que a vida ali com ele, ela não tem seguro de nada: o contrato do casamento que impossibilita ela de ter qualquer coisa caso se separem, os lucros da fazenda indo tudo para uma conta conjunta, até mesmo o lucro do Instagram que ela cria acaba indo para essa conta conjunta, pois ele descobre sobre o dinheiro. Mas a Natalie não é tão burra, e acaba conseguindo desviar um pouco desse dinheiro para uma conta pessoal. Mas fica evidente todo o tempo, que por mais que ela seja submissa, ela de fato não gosta nada daquela situação, mesmo que ela minta muito bem para ela mesma, a autora sabe escrever tão bem a personagem, que a gente percebe o quão aquela vida está acabando com ela, e o quanto ela sente inveja das mulheres livres que ela chama de "mulheres raivosas" que estão sempre a criticando na internet e apontando verdades.
Eu aconselho ler esse livro sem ter a expectativa voltada em viagem no tempo, imaginando como ela reagiria vivendo no passado, pois isso não é tão bem desenvolvido assim. Nessa viagem temporal ela passa todo o tempo presa na fazenda. O único choque de realidade que ela realmente tem é ter que viver sem conforto e mesmo assim quem faz tudo lá na casa, assumindo o papel de dona de casa é outra pessoa, então não foquem tanto nisso, mas peguem o livro para ler caso queiram ver uma pessoa hipócrita de direita tendo de lidar com a vida que ela tanto prega, mas que não consegue manter por muito tempo sem ter que "trapacear".
Bons tempos, Caro
Por Claire Burke
Acompanhe a história envolvente de Caro nesta leitura imperdível.
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